Introdução

Das origens à atualidade

Cronologia

 

Editorial

Das Origens à Atualidade
Maria Julieta Ormastroni
Diretora Executiva aposentada do IBECC/UNESCO.

Certas pessoas como o Dr. José Reis, quando cruzam o nosso caminho, deixam sempre marcas profundas.
No início eram semanas e depois vieram meses que foram seguidos por longos anos, dando assim, a forma de contarmos o tempo passar. Mas o espaço vivido acabou sendo contado por décadas. São as décadas que sentimos passar rápido e, na maioria das vezes, nem nos damos conta. O que notamos são as flores e os frutos que acabam despontando de semeaduras feitas às mãos cheias, jogadas perto ou longe, que receberam a chuva ou o orvalho da noite e acabaram vicejando.

Isto nos faz pensar o tempo vivido perto de certas pessoas, a importância de elas terem nascidos e termos tido a oportunidade de estarmos perto delas, em seu caminho, e ir misturando as nossas sementes, separando os espinhos e pedregulhos, fazendo ramalhetes com as mais diversas flores, por aí espalhadas.
Olhando então para trás, verificamos que o que importa realmente é como as sementes foram atiradas, semeadas e as flores colhidas.

Em 26 de julho de 1948 José Reis escreve um célebre artigo na Folha da Noite, "Em busca de talentos científicos". Nele demonstra o desperdício que era feito com o estudante brasileiro bem dotado na educação científica e no final do mesmo, ecoa um apelo: "Que surjam os Cientistas de Amanhã e, uma vez surgindo, recebem o apoio e a orientação necessários!"

Quando o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, IBECC/UNESCO - Comissão de São Paulo foi criado em 1950, por iniciativa do Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo, Prof. Miguel Reale, já teve sua Diretoria formada por uma plêiade de professores desta Universidade. Logo tomaram como bandeira de frente os Programas Não Formais e, naturalmente, sempre esteve entre eles o Dr. Reis.

O 1° Concurso Cientista de Amanhã foi lançado em 1957 no salão nobre da Faculdade de Medicina da USP, estando presente o Magnífico Reitor Gabriel Teixeira de Carvalho e, como ponto máximo, a presença de Anísio Teixeira, que, com sua verve lembrada por quantos o conheceram, brilhou com suas palavras dedicadas aos futuros Cientistas de Amanhã. Não ficaram atrás as saudações do presidente do IBECC, Prof. Paulo de Meneses Mendes Rocha, nem as de Marcelo Dammy e de José Reis.

Foi uma tarde brilhante. É bom lembrar que tanto o folder como o relatório final do mesmo foram feitos por Dr. José Reis e noticiados na Revista "Anhembi". Em seguida, foi feito o lançamento do 2° Concurso Cientistas de Amanhã na cidade do Rio de Janeiro, no prédio do Ministério da Educação. Contou com a presença do Senhor Ministro da Educação, Professor Clovis Salgado. Esta reunião é um grande marco, quer para o IBECC, quer para o Concurso Cientistas de Amanhã, quer para a Educação e a Ciência brasileiras, de um modo geral.

Foi nessa ocasião do lançamento que o Dr. Reis teve a feliz idéia de convidar o IBECC a fazer o referido Concurso dentro da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC. Aceito por todos os presentes, respondeu o Prof. Mendes Rocha, presidente do IBECC, não só aceitando como agradecendo a feliz iniciativa.

A partir de 1958, o Concurso Cientistas de Amanhã começou a ser realizado em cada cidade brasileira onde a Reunião Anual da SBPC se realizava. O Dr. José Reis sempre fez parte da Comissão de Julgamento e foi acompanhando as apresentações dos jovens e dando notícias na Folha de São Paulo.

A continuidade do Concurso tem sido dada graças ao esforço do Prof. Oscar Sala, presidente do IBECC/Unesco, Comissão de São Paulo. Temos jovens classificados de Amazonas ao Rio Grande do Sul. Muitos deles, professores, pesquisadores e titulares das nossas Universidades.

Feiras de Ciências foi outro programa lançado pelo IBECC/UNESCO - Comissão de São Paulo. As primeiras foram realizadas na Galeria Prestes Maia, isto na década de 60, quando nós mesmos carregávamos as tábuas para montagem das mesmas. Estas tábuas eram emprestadas pela Madeirit, através de seu presidente, Dr. Rubens de Melo que também era membro da Diretoria do IBECC.

À noite, quando encerrávamos a Exposição, antes de fechar o programa, havia, geralmente, conferências do Dr. José Reis. Vinha com entusiasmo, com seus pulôveres coloridos e vibrando, falar aos jovens expositores e ao público que, àquela hora, passava pela Galeria. Todos sentiam entusiasmo por aquele que iniciava falando em alfabetização científica. A Folha de São Paulo reproduzia suas palavras e divulgava o evento com artigos e fotos, levando notícias a todo o Brasil.

Tanto assim que, certa vez, indo a Goiânia, o Secretário de Educação, Prof. Iron da Rocha Lima, pediu-me informações detalhadas para implantar feiras de ciências no Estado de Goiás. Mas não entusiasmava só outros Estados. Aqui mesmo, no interior de São Paulo, "pipocavam" feiras de ciências nas mais variadas cidades. E, lá ia o Doutor/Professor/Jornalista e Divulgador Científico visitá-las. Artigos e fotos deste "caixeiro-viajante", como ele se intitulava, mostravam-no a ouvir os jovens e seus professores com interesse e grande satisfação. Quanta semente foi com isto lançada? Quanto entusiasmo entre alunos, professores e pais daí nasceu? Foram duas décadas de realizações.

Certo dia, de 1960, veio o Dr. Reis contar que a Folhinha de São Paulo, dedicada a crianças, ia ser criada e convidou-me a escrever, na mesma, artigos de divulgação científica. Aceitei mas constatei que nada havia, até então, neste sentido. Divulgação Científica nos meios infantis? Era algo novo... Planejei a criação de um Clube de Ciências IBECC/FOLHINHA onde crianças de 5 a 9 anos realizariam experimentos com material simples, encontrado em qualquer casa brasileira.

Exposto o plano ao Dr. José Reis foi logo aprovando mais, ponderou, isto, daria muito trabalho. E realmente dava... Constatei que não era nada fácil, mas que sempre trazia muitas compensações. Apanhava as crianças, de escolas diferentes, em sua casas e as trazia ao IBECC em meu carro, que o Dr. Reis chamava de "pseudo carro", pois era um Opel de 1939. Lá vinham elas, apinhadas umas sobre as outras, querendo saber o programa do dia.

Os artigos saíam semanalmente com fotos onde expressavam o trabalho realizado mas, também, a alegria e o espanto de uma criança diante de uma realização de experimento.

Um dia, descobri que tinha dois grandes leitores: O Dr. José Reis e Eurico Cabral de Oliveira Filho, Cientista de Amanhã em 1958 e Titular de Botânica da USP. Este trabalho durou duas décadas e meia.

Quando este programa foi relatado no 1° Congresso Latino-Americano de Divulgação Científica, realizado em Valência, Espanha, em 1990, despertou grande interesse entre os jornalistas científicos, mas, constataram, após dois dias de debates, que, para a realização dos artigos, só mesmo mantendo um clube de ciência com as crianças. Isto, porém, demandava muito trabalho aos articulistas e, parou aí.

O Congresso de Jovens Cientistas foi outro programa realizado pelo IBECC na área de Programas Não Formais. Quando a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) iniciou seus trabalhos em 23 de maio de 1962, teve como primeiro presidente científico o Prof. Warwick Estevam Kerr. Este propôs ao IBECC a criação de Programa de Ciências que ajudasse os jovens a se prepararem para o curso superior.
Aceita a proposta, apresentamos a idéia de um Congresso para Jovens Cientistas: alunos fariam experimentos com o auxílio de um orientador e, depois, escreveriam uma monografia. Seriam convidados a virem, o aluno e seu professor, a São Paulo, onde apresentariam a um público presente constituído dos próprios estudantes, seus professores, e por professores/pesquisadores/especialistas no assunto elegido pelos alunos.

Planejado apenas para o Estado de São Paulo, acabou tal qual o Concurso Cientistas de Amanhã, estendido para todo o território nacional, pois houve solicitação insistente de professores e alunos de outros Estados. Ficávamos todos alojados na Cidade Universitária por dias, à noite tínhamos sempre conferências de um cientista, durante as quase três décadas que o mesmo perdurou.

O Dr. José Reis era um dos conferencistas que empolgavam os estudantes e é lembrado até o dia de hoje. Lembramo-nos de que, logo no início deste programa, o Dr. Luiz Arroba Martins ficou muito empolgado pelo mesmo e, como estava lançando o Festival de Inverno em Campos do Jordão, consultou-me sobre a possibilidade de o mesmo ser realizado dentro daquela programação. Mas precisávamos de uma gama enorme de especialistas nas mais diferentes áreas científicas e chegamos à conclusão de sua impossibilidade, longe de uma universidade.

Mas recentemente durante doze semestres, realizamos na sede do IBECC o Programa Clube de Ciência e Cultura onde crianças de escolas municipais da periferia de São Paulo vinham, com seus monitores, terem classes nas áreas de Ciência, Artes, Linguagem e Matemática. Deste trabalho resultou o livro Aprendendo a Aprender, que foi editado com apoio do INEP/MEC.

Dr. José Reis escreveu, no período, vários artigos sobre clubes de ciência e cultura. Ultimamente, baseando-se nos artigos do próprio IBECC, apresentou a possibilidade de se tirar crianças de rua através do trabalho dos clubes de ciência e cultura.

Em 1994, foi dado, em São Paulo, um curso, destinado a professores do primeiro grau, para criarem Clubes de Ciência e Cultura em suas escolas. Mais recentemente, foi aprovado por mérito pela FAPESP, que está entrando em programas de Educação, um programa do IBECC para a criação de Clubes nas Escolas. O programa foi planejado em dois pólos:

1. Na cidade de Jacareí, com a Secretaria Municipal de Educação, e;

2. Em Ribeirão Preto, na Escola Estadual Otoniel Mota, que tem 25 classes de Magistério e conta com o trabalho de alunos do CEIQ, do Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP daquela cidade.

Esperamos que este projeto pelo menos dure uma década. Olhem para trás. Vejam que décadas são quase nada!

Tudo passa tão rápido que nem nos damos conta. Festejamos nove (9) décadas percorridas na vida do Dr. Reis. Ora, creio, que poderíamos já planejar um programa para o ano 2007 quando festejaríamos as dez (10) décadas vividas pelo Dr. José Reis. O que acham?
Será que eu contei tudo?

É difícil elaborar um programa e incluir ao mesmo todas as pessoas que dele participarão. Fazemos um plano, mas não sabemos com quem contaremos realmente. Com o tempo, no seu devido tempo, aparecem aqueles que não só ajudarão mas também darão o caráter definido, pois se farão presentes.

Assim foi com o Concurso Cientista de Amanhã que completou 40 anos de realizações. Desde o início, como era um concurso, o esquema necessário era de contar com um grupo para ler os trabalhos e selecioná-los e, ainda, contar com uma Comissão de Julgamento para avaliação final.

Como é um Concurso onde os concorrentes têm a liberdade de escolher o campo de suas pesquisas e/ou experimentos, sabíamos que tínhamos de contar com especialistas nas mais diversas áreas da ciência. Precisávamos de uma gama de professores e pesquisadores que só poderíamos encontrar na universidades ou instituições de pesquisas. Falando com o Dr. Reis demonstrei a necessidade de contarmos também com o auxílio de psicólogos, com o que ele concordou.

A professora Carolina Bori prontificou-se a nos auxiliar mas nem sempre isto era possível devido a seus inúmeros afazeres, porém, prontamente, indicava alguém para substituí-la. Com o passar do tempo ela ficou figura marcante nas sessões de apresentação dos trabalhos e Comissão de Julgamento. Sua presença não era só na fase final do Concurso. Auxiliava na preparação da programação, na leitura do projeto, no auxílio e na verificação do comportamento dos jovens classificados, mas não parava aí.

Tentávamos, há muito, de várias formas envolver pesquisadores e professores brasileiros na realização do Concurso Cientistas de Amanhã. Mas não fomos felizes. Mas a Profª Carolina Bori sugeriu que as Secretarias Regionais da SBPC fossem envolvidas no projeto. Vejam!

Encarregando-se os secretários regionais da divulgação quer para Escolas, quer nas Secretarias de Educação, quer nas notícias de jornais e rádios locais, estávamos, por final, cobrindo todo o território brasileiro. Como também devem receber as inscrições e distribuir os trabalhos recebidos entre especialistas para serem lidos e classificados e, só então, enviar ao IBECC os melhores para uma escolha final, estão se envolvendo e fazendo com que a elite pensante, cultural e científica do País esteja ligada ao Concurso Cientistas de Amanhã. Lendo os trabalhos, toda esta legião de professores e cientistas, quer nas áreas de Ciência Física e Naturais, quer na de Humanas, ficam conhecendo como anda o ensino e a educação e a orientação dos estudantes de sua região.

Muitos dos senhores secretários regionais tomam interesse por este Programa e estão presentes na sessão de apresentação dos jovens classificados na Reunião Geral da SBPC, sendo tradicional fazerem parte da Comissão de Julgamento, o que muito nos envaidece.

Carolina Bori, há anos, lá está, sempre presente. Seu conhecimento da pessoa humana muito nos auxilia. Houve um tempo em que tivemos trabalhos de Psicologia Animal e foi ela, com conhecimento de causa, que entusiasmou e orientou os jovens estudantes secundaristas a prosseguir no projeto. As primeiras apresentações deles foram no Concurso Cientistas de Amanhã, destinado a estudantes de todo o território nacional.

Em cada apresentação, durante dois ou três anos, os jovens foram recebendo orientação de Carolina Bori e foram modificando seus experimentos, seu modo de registrar os fatos observados e até sua linguagem, por fim tiveram seus trabalhos selecionados para o Concurso Cientistas de Amanhã e chegaram a ser premiados, o que é, afinal, o almejado por todos os concorrentes.

Carolina Bori está presente não só no Concurso Cientistas de Amanhã mas em todos os trabalhos desenvolvidos pelo IBECC, que ela sempre valorizou, estimou e contribuiu. Interessa-se muito por trabalhos realizados para crianças, também nos cursos e treinamentos de professores que militam com estudantes do nível primário, secundário e terceiro grau. Está sempre auxiliando, com seu vasto conhecimento, onde esteja. Seja no Departamento de Psicologia da USP, na SBPC, na Estação Ciência, no NUPES, no IBECC, no MEC, na UNB, no CNPq e em São Carlos, em Ribeirão Preto, em Brasília ou no Nordeste.

Está sempre disposta a fazer uma pausa para atender aos que a procuram. Os que estão necessitados de um ouvido amigo, naquela hora. Debate com veemência nas reuniões de que participa, quer com palavras, quer com argumentos e com exemplos que acabam fazendo o grupo as vezes rever suas opiniões mas, também, aceita a opinião de outros quando esta é balizada e constata sua validade.

Vejo que Carolina Bori não é só isto, é algo mais, que cada um de nós a sente como dentro de si. Em princípio podemos ter uma impressão diferente dela, mas, à medida que vamos convivendo, verificamos que é uma grande amiga. Isto é demostrado nas horas de amargura, de problemas infidáveis e no sofrimento. Que podemos querer mais?

Todos a vemos dividir-se, está presente na hora de problemas árduos e nas horas difíceis que todos nós temos durante este tempo de viver na Terra. Depois que escrevi e de reler o que foi escrito achei que estamos precisando de umas quatro ou cinco Carolina Bori, no Brasil.